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ANOREXIA E BULIMIA, PROBLEMAS COM COMIDA
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SUELI NASCIMENTO
Sueli Nascimento – Psicóloga. Psicoterapeuta Breve Caracteroanalítica, ESTER-Escuela Española de Terapia Reichiana, Valenza-Espanha. Analista Reichiana pela Associação Wilhelm Reich do Brasil. Facilitadora de Grupos de Movimento. Articulista. Palestrante. Videodocumentarista.  
por SUELI NASCIMENTO
Publicado 9/08/08
 
A imposição das formas perfeitas sobre a mulher brasileira é coisa antiga, na década de 1970 se alertava para o fato de que: "mulher feia é como sucata: não tem lugar no mercado (...) sem as linhas aerodinâmicas, sem a silhueta da moda e o rosto que está em voga naquela estação, só lhe resta uma espécie de limbo, sem prazeres e sem presença" e "as mulheres ouvem, desde a mais tenra infância, que de sua aparência depende tudo (...) convenceram-na de que, se não for mais bonita, não será mais ninguém". Heloneida Studart, "Mulher Objeto de cama e mesa".

Ou de como uma cultura misógina subliminar (mas nem tanto) pode contribuir para o paradoxo de vender imagens da fome como se fossem pãezinhos quentes.


       Há, ainda, quem afirme que denúncias contra a misoginia é coisa de mulher com delírio persecutório. Fomos averiguar. Na literatura consultada descobrimos que nada há de delirante nas queixas feministas. Lidar com questões femininas como assunto menor pervaga a construção social do ser mulher e está no cerne da construção do autoconceito de meninas e meninos. 

        Encontramos inclusive vários trabalhos que apontam para a predominância da desqualificação no trato de assuntos referentes aos tratamentos oferecidos às mulheres em Saúde Pública e ao modo como, apesar da Lei Maria da Penha, se desenvolvem os processos judiciais decorrentes de violência doméstica. Em letras de música e programas humorísticos
prevalece uma misoginia tolerada como parte inofensiva do imaginário cultural popular.


        No decorrer da História mitos e ideologias sobre sexo frágil" e metáforas beligerantes como a "guerra dos sexos" perpetuam-se sob diferentes aspectos, sempre em detrimento da inteligência e autonomia das mulheres. Duas dessas ideologias, especialmente massacrantes, são a imposição da "mística da maternidade"

2 e tudo que dela decorre, sobre o que não falaremos neste artigo, e o apelo estético das formas perfeitas – seja lá o que isso signifique.
  

A perfeição e o duplipensar

George Orwell3, em seu "1984", fala do duplipensar, isto é, a tirania da manipulação da informação que leva ao controle absoluto do passado, do presente e do futuro das pessoas. De como as lembranças, expectativas e visão de mundo podem ser formatadas para manter o sistema funcionando.


Nesse livro Orwell demonstra como seria a vida baseada em informações distorcidas que fazem com que as pessoas saibam "
em todas as circunstâncias, sem precisar raciocinar" no que devem acreditar e o que devem sentir. E, para as recalcitrantes havia sempre o Big Brother a lembrar como e o quê se deve querer, pensar e buscar. É exatamente dessa forma que vivem muitas mulheres: buscando, querendo e pensando para si um corpo que não é o seu, mas que lhe é imposto – e aceito – como sendo o corpo perfeito.


Aproximadamente a partir da década de 1960 a publicidade vinculada à moda e à indústria de cosméticos associou o
corpo magro às idéias de beleza e juventude como condição para se obter sucesso profissional, estabelecendo uma ligação – para lá de direta – entre o padrão de beleza estabelecido pelo mercado misógino e as possibilidades de insersão das mulheres no mercado de trabalho.


A fórmula mostrou-se eficiente, ainda hoje em revistas e programas de televisão dirigidos às mulheres os emagrecedores aparecem como produtos milagrosos que vão transformar suas vidas a partir da modificaçao de sua aparência,
sem esforço. Dietas rápidas, sem sofrimento nem efeitos colaterais para adquirir o corpo perfeito e as formas certas são sobejamente demonstrados em insistentes anúncios direcionados ao público feminino. Aliás, "o desejo de ser bela só não se realizará se ela não quiser"4.


A moça do comercial

O que se vê pela tv e nas capas de revista de moda são jovens magérrimas, descarnadas e com olhares lânguidos. Algumas aspirantes a modelo têm como modelo de beleza e ideal a ser alcançado, as mulheres etíopes destruídas pela fome, esquálidas, de rosto chupado e olhos semimortos.

Já os formadores de opinião – os mesmos que detém os meios de produção e difusão cultural e de informação, sobretudo o audiovisual – fazem ouvidos moucos cada vez que são questionados eticamente  ou convidados a uma reflexão séria no sentido de repensar os modelos e estereótipos que povoam a construção da auto-imagem da mulher brasileira.


Por estarem socialmente envolvidas em expectativas de alcançar o que convencionou-se chamar
beleza perfeita algumas mulheres a sucumbirem à redundância utilizada em discursos publicitários desenvolvendo, inclusive, os comportamentos alimentares inadequados em resposta aos padrões estéticos perversamente estabelecidos.


Na verdade, "
o contexto pressiona e modifica o comportamento. O prazer individual de fazer o que tem vontade e comer o que gosta é substituído por um valor que a sociedade impõe ao estipular padrões de beleza"5. Assim, o esforço por alcançar algo que a diferenciará das outras, aumentando as oportunidades de sucesso, já levou muitas mulheres a formas graves de rejeição ao alimento: uma estudante de 16 anos, com anorexia nervosa, afirmou em São Paulo que "se fosse magra seria feliz e gostariam de mim".


Wolf
alerta: "a seita da perda do peso recruta as mulheres desde cedo, e os distúrbios da nutrição são seu legado. A anorexia e a bulimia são doenças do sexo feminino"6.


Problemas com comida

Para alguns talvez a afirmação soe exagerada, entretanto, as estatísticas confirmam e os números são assustadores: 95% dos casos de transtornos alimentares é formado por mulheres jovens; das que são acometidas pela anorexia e chegam a tratamento médico aproximadamente 25% conseguem recuperar-se, 50% melhoram mas tendem a recaídas e 25% não respondem aos tratamentos7.


A nomenclatura

anorexia nervosa foi descrita pela primeira vez no século xix por William Gull. Mas já havia registros da ocorrência de transtornos alimentares na Idade Média, quando então a prática de jejuns prolongados eram reforçados como busca de elevação espiritual.


A paciente apresenta uma distorção na percepção corporal e controla obsessivamente a quantidade de calorias dos alimentos que ingere. Muitas apresentam comportamento retraído e tendência a um perfeccionismo perverso, se for necessária internação para recuperação podem encher os bolsos com objetos pesados para fingir ganho de peso. O quadro de anorexia apresenta vários sinais: hipotermia, hipotensão, edema, bradicardia, lanugo, infertilidade, amenorréia entre outros.


As causas da anorexia são multifatoriais, os estudos apontam em várias direções, das probabilidades hereditárias aos efeitos da educação machista sub-reptícia, passando pela possibilidade, apontada por alguns médicos, do quadro se manifestar a partir de certas infecções bacteriológicas8

. Após algum tempo podem apresentar desidratação, desequilíbrio de eletrólitos, crises epilépticas e ritmo cardíaco anormal entre outros sinais.


A mulher que sofre com a bulimia também apresenta percepção corporal distorcida, é excessivamente preocupada com seu peso e aparência física, come compulsivamente grandes porções de alimento em curto espaço de tempo, em seguida lança mão de vômito forçado e/ou uso de diuréticos ou laxantes para compensar a comilança, às vezes tende ao abuso de álcool. Pode desenvolver anorexia após a bulimia ou ter os dois quadros combinados, além dos sintomas descritos acima, vai desenvolver também: desgaste dentário, hérnia de hiato, abrasão do esôfago, insuficiência renal e osteoporose.

 

O fato é: se as pacientes com transtornos alimentares não forem assistidas a tempo elas podem morrer. Entretanto essa constatação não é suficiente para que empresas de seguro saúde, publicidade e moda vejam a situação como merecedora de atenção.

Infelizmente, mesmo com o aumento de meninas e mulheres em filas de espera nos poucos serviços gratuitos de atendimento a transtornos alimentares, no Brasil a questão não é compreendida como problema de saúde pública.

Apesar das mortes os meios de comunicação e a Educação formal não adotam nenhum tipo de ação afirmativa que diminua a misoginia presente em produções e grades currículares.


Algo precisa ser feito, e logo. Cabe ao movimento social exigir dos formadores de opinião o respeito e a dignidade a que as mulheres têm direito e cobrar das autoridades as políticas públicas que reparem os danos causados à saúde das mulheres por anos e anos de práticas misóginas.