Há, ainda, quem afirme que denúncias contra a misoginia é coisa de mulher com delírio persecutório. Fomos averiguar. Na literatura consultada descobrimos que nada há de delirante nas queixas feministas. Lidar com questões femininas como assunto menor pervaga a construção social do ser mulher e está no cerne da construção do autoconceito de meninas e meninos. 

        Encontramos inclusive vários trabalhos que apontam para a predominância da desqualificação no trato de assuntos referentes aos tratamentos oferecidos às mulheres em Saúde Pública e ao modo como, apesar da Lei Maria da Penha, se desenvolvem os processos judiciais decorrentes de violência doméstica. Em letras de música e programas humorísticos
prevalece uma misoginia tolerada como parte inofensiva do imaginário cultural popular.


        No decorrer da História mitos e ideologias sobre sexo frágil" e metáforas beligerantes como a "guerra dos sexos" perpetuam-se sob diferentes aspectos, sempre em detrimento da inteligência e autonomia das mulheres. Duas dessas ideologias, especialmente massacrantes, são a imposição da "mística da maternidade"

2 e tudo que dela decorre, sobre o que não falaremos neste artigo, e o apelo estético das formas perfeitas – seja lá o que isso signifique.
  

A perfeição e o duplipensar

George Orwell3, em seu "1984", fala do duplipensar, isto é, a tirania da manipulação da informação que leva ao controle absoluto do passado, do presente e do futuro das pessoas. De como as lembranças, expectativas e visão de mundo podem ser formatadas para manter o sistema funcionando.


Nesse livro Orwell demonstra como seria a vida baseada em informações distorcidas que fazem com que as pessoas saibam "
em todas as circunstâncias, sem precisar raciocinar" no que devem acreditar e o que devem sentir. E, para as recalcitrantes havia sempre o Big Brother a lembrar como e o quê se deve querer, pensar e buscar. É exatamente dessa forma que vivem muitas mulheres: buscando, querendo e pensando para si um corpo que não é o seu, mas que lhe é imposto – e aceito – como sendo o corpo perfeito.


Aproximadamente a partir da década de 1960 a publicidade vinculada à moda e à indústria de cosméticos associou o
corpo magro às idéias de beleza e juventude como condição para se obter sucesso profissional, estabelecendo uma ligação – para lá de direta – entre o padrão de beleza estabelecido pelo mercado misógino e as possibilidades de insersão das mulheres no mercado de trabalho.


A fórmula mostrou-se eficiente, ainda hoje em revistas e programas de televisão dirigidos às mulheres os emagrecedores aparecem como produtos milagrosos que vão transformar suas vidas a partir da modificaçao de sua aparência,
sem esforço. Dietas rápidas, sem sofrimento nem efeitos colaterais para adquirir o corpo perfeito e as formas certas são sobejamente demonstrados em insistentes anúncios direcionados ao público feminino. Aliás, "o desejo de ser bela só não se realizará se ela não quiser"4.


A moça do comercial

O que se vê pela tv e nas capas de revista de moda são jovens magérrimas, descarnadas e com olhares lânguidos. Algumas aspirantes a modelo têm como modelo de beleza e ideal a ser alcançado, as mulheres etíopes destruídas pela fome, esquálidas, de rosto chupado e olhos semimortos.

Já os formadores de opinião – os mesmos que detém os meios de produção e difusão cultural e de informação, sobretudo o audiovisual – fazem ouvidos moucos cada vez que são questionados eticamente  ou convidados a uma reflexão séria no sentido de repensar os modelos e estereótipos que povoam a construção da auto-imagem da mulher brasileira.


Por estarem socialmente envolvidas em expectativas de alcançar o que convencionou-se chamar
beleza perfeita algumas mulheres a sucumbirem à redundância utilizada em discursos publicitários desenvolvendo, inclusive, os comportamentos alimentares inadequados em resposta aos padrões estéticos perversamente estabelecidos.


Na verdade, "
o contexto pressiona e modifica o comportamento. O prazer individual de fazer o que tem vontade e comer o que gosta é substituído por um valor que a sociedade impõe ao estipular padrões de beleza"5. Assim, o esforço por alcançar algo que a diferenciará das outras, aumentando as oportunidades de sucesso, já levou muitas mulheres a formas graves de rejeição ao alimento: uma estudante de 16 anos, com anorexia nervosa, afirmou em São Paulo que "se fosse magra seria feliz e gostariam de mim".


Wolf
alerta: "a seita da perda do peso recruta as mulheres desde cedo, e os distúrbios da nutrição são seu legado. A anorexia e a bulimia são doenças do sexo feminino"6.