ANOREXIA E BULIMIA, PROBLEMAS COM COMIDA
- por SUELI NASCIMENTO
- Publicados 9/08/08
- Política
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SUELI NASCIMENTO
Sueli Nascimento – Psicóloga. Psicoterapeuta Breve Caracteroanalítica, ESTER-Escuela Española de Terapia Reichiana, Valenza-Espanha. Analista Reichiana pela Associação Wilhelm Reich do Brasil. Facilitadora de Grupos de Movimento. Articulista. Palestrante. Videodocumentarista.
Veja todos os artigos por SUELI NASCIMENTOOu de como uma cultura misógina subliminar (mas nem tanto) pode contribuir para o paradoxo de vender imagens da fome como se fossem pãezinhos quentes.
Há, ainda, quem afirme que denúncias contra a misoginia é coisa de mulher com delírio persecutório. Fomos averiguar. Na literatura consultada descobrimos que nada há de delirante nas queixas feministas. Lidar com questões femininas como assunto menor pervaga a construção social do ser mulher e está no cerne da construção do autoconceito de meninas e meninos.
Encontramos inclusive vários trabalhos que apontam para a predominância da desqualificação no trato de assuntos referentes aos tratamentos oferecidos às mulheres em Saúde Pública e ao modo como, apesar da Lei Maria da Penha, se desenvolvem os processos judiciais decorrentes de violência doméstica. Em letras de música e programas humorísticos prevalece uma misoginia tolerada como parte inofensiva do imaginário cultural popular.
No decorrer da História mitos e ideologias sobre sexo frágil" e metáforas beligerantes como a "guerra dos sexos" perpetuam-se sob diferentes aspectos, sempre em detrimento da inteligência e autonomia das mulheres. Duas dessas ideologias, especialmente massacrantes, são a imposição da "mística da maternidade"
2 e tudo que dela decorre, sobre o que não falaremos neste artigo, e o apelo estético das formas perfeitas – seja lá o que isso signifique.
A perfeição e o duplipensar
George Orwell3, em seu "1984", fala do duplipensar, isto é, a tirania da manipulação da informação que leva ao controle absoluto do passado, do presente e do futuro das pessoas. De como as lembranças, expectativas e visão de mundo podem ser formatadas para manter o sistema funcionando.
Nesse livro Orwell demonstra como seria a vida baseada em informações distorcidas que fazem com que as pessoas saibam "em todas as circunstâncias, sem precisar raciocinar" no que devem acreditar e o que devem sentir. E, para as recalcitrantes havia sempre o Big Brother a lembrar como e o quê se deve querer, pensar e buscar. É exatamente dessa forma que vivem muitas mulheres: buscando, querendo e pensando para si um corpo que não é o seu, mas que lhe é imposto – e aceito – como sendo o corpo perfeito.
Aproximadamente a partir da década de 1960 a publicidade vinculada à moda e à indústria de cosméticos associou o corpo magro às idéias de beleza e juventude como condição para se obter sucesso profissional, estabelecendo uma ligação – para lá de direta – entre o padrão de beleza estabelecido pelo mercado misógino e as possibilidades de insersão das mulheres no mercado de trabalho.
A fórmula mostrou-se eficiente, ainda hoje em revistas e programas de televisão dirigidos às mulheres os emagrecedores aparecem como produtos milagrosos que vão transformar suas vidas a partir da modificaçao de sua aparência, sem esforço. Dietas rápidas, sem sofrimento nem efeitos colaterais para adquirir o corpo perfeito e as formas certas são sobejamente demonstrados em insistentes anúncios direcionados ao público feminino. Aliás, "o desejo de ser bela só não se realizará se ela não quiser"4.
A moça do comercial
O que se vê pela tv e nas capas de revista de moda são jovens magérrimas, descarnadas e com olhares lânguidos. Algumas aspirantes a modelo têm como modelo de beleza e ideal a ser alcançado, as mulheres etíopes destruídas pela fome, esquálidas, de rosto chupado e olhos semimortos.
Já os formadores de opinião – os mesmos que detém os meios de produção e difusão cultural e de informação, sobretudo o audiovisual – fazem ouvidos moucos cada vez que são questionados eticamente ou convidados a uma reflexão séria no sentido de repensar os modelos e estereótipos que povoam a construção da auto-imagem da mulher brasileira.
Por estarem socialmente envolvidas em expectativas de alcançar o que convencionou-se chamar beleza perfeita algumas mulheres a sucumbirem à redundância utilizada em discursos publicitários desenvolvendo, inclusive, os comportamentos alimentares inadequados em resposta aos padrões estéticos perversamente estabelecidos.
Na verdade, "o contexto pressiona e modifica o comportamento. O prazer individual de fazer o que tem vontade e comer o que gosta é substituído por um valor que a sociedade impõe ao estipular padrões de beleza"5. Assim, o esforço por alcançar algo que a diferenciará das outras, aumentando as oportunidades de sucesso, já levou muitas mulheres a formas graves de rejeição ao alimento: uma estudante de 16 anos, com anorexia nervosa, afirmou em São Paulo que "se fosse magra seria feliz e gostariam de mim".
Wolf alerta: "a seita da perda do peso recruta as mulheres desde cedo, e os distúrbios da nutrição são seu legado. A anorexia e a bulimia são doenças do sexo feminino"6.




