Esticou os braços até onde pôde, mas não foi o suficiente para apanhar a carta. E, prédio abaixo, o pedaço de papel foi cedendo, sem lutar, à lei da gravidade.
No fundo, era o que ele queria. Sim, tudo culpa do coração egoísta que o fitava, severo, de dentro daquele corpo, que, horas atrás, se prostrava diante da ponte mais alta da cidade. Então, quando a vida ia passando leitosa nos seus olhos interiores, dois braços miúdos o circundaram e ela disse: “faça alguma coisa por outra pessoa uma vez na vida, e fique.”. O bastante para fazê-lo se virar, fitá-la profundamente nos olhos e chorar, por vir à luz mais uma vez.
Deitados na cama, não se lembravam de um dia terem partilhado segredos, darem risadas, chorarem.

Como a precária luz do abajur, tudo era desbotado e frio, pendurado no limiar da sobrevida. Ele pegou a carta, essa era a primeira vez, a mesma carta que ele viu fugir de si e cair do prédio, e leu, silenciosamente.
E o rosto dela se movia, alguns músculos ganhavam vida, como a querer expressar-se contra ou a favor do silêncio instalado, um cabo-de-guerra frágil e sem vencedores. Depois de ler, os dois sorriram. Ela riu.

“Não pensava que você agiria assim”. Mas ninguém sabia presumir o modo com que ele se comportava.

Sempre imprevisível.
Pegou na caneta, rabiscou um número no envelope, e devolveu-o à moça.

Só viu ambos, o envelope e a moça, quando caíam do décimo sétimo andar. E, ainda assim, mal sentiu qualquer piedade. E no seu corpo, na sua cabeça, entretanto, tudo parecia tão fora do lugar. Como se várias coisas tivessem sido amontoadas para preencher o espaço de um elemento roubado. Sim, ele sentia que fora roubado; que um dia o teve, e não mais. Um aleijado emocional.
Sentia o vazio, e sentia também a frieza da prótese mecânica, automática, ligada numa tomada que o impedia de ir mais longe. Por vezes, tinha a sensação de ter novamente aquela parte que lhe faltava, mas quando se voltava para si mesmo, percebia que continuava máquina.
Nessa noite, via-se como um anormal, um criminoso, o mais fétido habitante do submundo. Já não sentia como se faltasse uma peça de sua cabeça, mas como se todos os seus membros fossem deformados, e seus olhos refletissem a loucura interior para quem se dispusesse a fitar sua imagem velha e retorcida.
E na cidade, não havia rampas para ampará-lo quando percorresse calçadas, não havia braile pra fazê-lo ler corretamente os sinais, não havia atendimento preferencial, para quando ele sentisse urgência do mundo. Assim, sem poder compreender o mundo e sem ser compreendido, o aleijado emocional foi procurar o seu vale dos leprosos, no fundo do rio, logo abaixo da ponte mais alta da cidade.