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OS TESTÍCULOS
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Henrique Araújo
Henrique Pompilio de Araújo, Brasileiro, casado, residente em Cuiabá. Professor aposentado. Possui alguns livros publicados e muitos textos distribuídos por participação em livros, jornais e revistas. Muitas obras para serem publicadas. Paranaense, pai de dois filhos. 
por Henrique Araújo
Publicado 29/06/09
 
Você, Homem, já pensou em dormir e acordar sem os documentos de masculinidade?

Os testículos
OS TESTÍCULOS

Caridoso do jeito que sou, fui a um hospital e fiz, por escrito, a doação dos órgãos do meu corpo para que fossem reaproveitados assim que eu morresse. Não que estivesse velho, nem que estivesse doente. É que mataria dois coelhos com uma cajadada só: faria uma boa ação e algo de mim continuaria vivo. Talvez a pessoa que recebesse algum órgão meu, fizesse também a doação do mesmo órgão, assim que morresse e esse também fizesse o mesmo e assim sucessivamente. Resultado: praticamente eu estaria sempre vivo, pelo menos em parte. Duro mesmo é doar o coração - pensei. Coração é um órgão que se apaixona à toa. Já pensou doar meu coração a uma mulher( eu que sou homem e gosto muito de mulher) e esta dita cuja vir a se apaixonar por um homem? E com meu coração? Confesso que lá no outro mundo iria passar à noite inteira sem pregar olho, se é que lá também tem este costume, porque aqui na terra meu olho já estaria pregado eternamente mesmo, se não o doaram também.
Fui também a um cartório e lavrei meu testamento, que era muito original: mandem todos os que falarem mal de mim à merda, cobrem o Zé Barrigudo dois bois que lhe vendi fiado, também tomem o carro que emprestei ao Tibúrcio. Não é porque morri que os velhacos vão ficar tranqüilos. Se não pagarem, me avisem que vou jogar-lhe a meia noite uma lata de água fervente. Na concessionária devo um carro zerinho, a conta da loja e do mercado ainda não foram pagas. Não precisam ter pressa, afinal eu sou um defunto. Caso eles se azucrinarem, mandem a polícia me prender”. Fiz meu testamento mais ou menos nestes termos.
Com a consciência tranqüila fui para casa. Não disse nada a ninguém e continuei com a vidinha de sempre: maracutaia daqui, trapacinha de lá, uma vida normal como a de todo ser humano.
Dizem que quem faz doação de órgão acaba morrendo logo. Há muitos defuntos esperando nossos órgãos, pois não é que morri mesmo?
Não sei contar como foi, mas quando acordei estava morto. Encontrei-me num lugar totalmente estranho. Tinha gente pra burro e as pessoas falavam as línguas mais estranhas. Havia um prédio enorme e era um entra e sai que não acabava mais. Nenhum conhecido para me explicar alguma coisa. Tava mais por fora que bunda de índio. Como todo mundo entrava no prédio, meti a cara e fui também. Que maravilhas lá dentro: era uma festa enorme, muito churrasco, muita bebida, torta, música. O melhor de tudo era a mulherada. Havia ali as mais belas beldades que se possa imaginar! A mulherada usava apenas uma peça do vestuário: só a calcinha. O resto todo ficava de fora. Se fosse na terra, diriam que aquilo ali era o inferno, mas para mim era um verdadeiro céu. Peguei logo um barril de chopp, uma perna de vaca inteira e uma torta de 10 kgs. Sentei-me num banquinho de cimento e mandei brasa. Nunca vi apetite tão grande como aquele. Logo mais uma mulata fogosa apareceu, mas era uma mulata mesmo, daquelas de fazer cego enxergar na hora e perneta jogar a muleta fora, tal o milagre. Sentou-se perto de mim, começou a conversar. Fiquei doido pela mulata, fiz um convite a ela que aceitou na hora, sem pestanejar. Terminado o respaldo, fomos para o quarto, fizemos os preparativos, fomos para a cama e... os testículos, cadê os testículos? Não é que fizeram a doação dos meus testículos. Comecei a gritar como um desesperado: os testículos... cadê meus testículos... os testículos. Pus as duas mãos no vão das pernas e gritava mais forte ainda, já não gritava, berrava. Estava extremamente agitado, suava que só alambique. Foi então que levei um ponta-pé no traseiro. Acordei gritando alto e muito cansado. Era minha mulher que me acordava dizendo:
- Testículos? Você não está vendo que suas coisas estão aí no mesmo lugar?
Acordei sem graça, segurando os meus órgãos. Não sei por que, mas não conseguia tirar a mão dali, quando minha mulher berrou:
- E vê se tira a mão desta coisa.
- Coisa? Já pensou chamar este belo par de ovos de coisa? Pensei.
- Da próxima vez eu é quem vou tirar isto daí.
Não consegui dormir mais naquela noite. No outro dia fui a uma loja e comprei um cinto de castidade. Assim quando pratico o ato sexual, boto o cinco de segurança para dormir. Já pensou se tenho outro sonho daquele e esta minha mulher louca bota mesmo em prática o que ela acabou de falar? Estarei perdido e como medida de segurança procurarei me prevenir.

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