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TEM CADA LOUCO
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Henrique Araújo
Henrique Pompilio de Araújo, Brasileiro, casado, residente em Cuiabá. Professor aposentado. Possui alguns livros publicados e muitos textos distribuídos por participação em livros, jornais e revistas. Muitas obras para serem publicadas. Paranaense, pai de dois filhos. 
por Henrique Araújo
Publicado 29/06/09
 
Você já imaginou o que acontece em um hospício? Aqui vão alguns casos verídicos.

Tem cada louco
TEM CADA LOUCO

Há cada louco no mundo que acaba deixando a gente louco de raiva. Morei perto de um hospício e sei o que cada louco apronta. Já vi e ouvi tanta história de louco que contando nem louco acredita.
A primeira vez que vi uma louca foi num município pequeno. Eu tinha 7 anos de idade. Era uma mulher alta, morena e de cabelos longos, uma louca bem asseada, com panca de rica, mas completamente louca. Só vivia andando pra lá e pra ca. Só comia porque o povo lhe dava alguma coisa.
Certa vez eu estava brincando na copa de uma árvore frondosa que se balançava para um lado e outro e eu ia junto na maior farra. Ficava num campinho um pouco deserto a uns 50 metros de casa. Quando eu olho para baixo, lá estava a louca gritando por mim. Fiquei lá em cima da árvore, tremendo de medo. Eu já ouvira muitas histórias a respeito desta louca. Agora estava numa situação sem saída. Gritar não adiantava, estava longe das casas. Pular não podia, estava muito alto. Para cima não poderia ir, estava no topo e não podia voar. Para baixo não podia descer, ela me pegaria. Que faria então? Desci um pouco mais, sempre olhando a tal louca. De repente ela sentou-se no chão, tirou a blusa, tirou a saia e a calcinha. Abriu bem as pernas e gritou para mim: olha. Pela primeira vez vi uma mulher daquele jeito, foi então que de um pulo eu já estava no chão e pernas pra que te quero. Eu sabia que ela não ia correr nua. Grande inteligência! Quando eu olho para traz, a mulher vinha pega e não pega em mim. completamente nua. Cheguei em casa com a língua de fora, não contei nada a ninguém, caí na cama e me cobri todo. Nunca mais ouvi falar na tal louca.
Numa outra ocasião vi um louco anão. Só andava maltrapilho e com um enorme saco nas costas. Perambulava pelas ruas da cidade, dormia ao relento. Com ele poder-se-ia conversar normalmente, só não gostava que lhe chamassem de desgraçado. O pobre tinha horror a esta palavra. E a molecada da cidade falava este palavrão toda vez que via o homem. Ele saía correndo atrás do fulano gritando:
- Digraçado! Digraçado! Digraçado!
Coitado! Nem falar direito sabia.
Nesta mesma cidade apareceu outro louco, um homem alto, forte, barbudo. Como só andava sujo, deram-lhe o nome de paiol. O homem virava uma fera quando lhe chamavam pelo apelido, corria atrás da molecada e se pegasse era capaz de matar mesmo, tal a força do homem.
Ninguém sabia de onde veio aquela peça. Ele era uma pessoa grosseira, morava num único quarto no campo de aviação, só vivia sentado numa calçada em frente ao cinema. Se ninguém lhe desse comida ali, ali mesmo morreria de fome. Devia ter uns 50 anos de idade.
Certa vez este louco invadiu a casa de uma prostituta e tentou ter relações com ela, à força. Estava armado com uma garrucha. A mulher reagiu, chamou as outras e ele foi embora. Alguns dias depois ele veio a falecer.
Há loucos mansos, porém há loucos perigosos.
Outro dia estava em casa com meu irmão assistindo televisão. Chovia muito quando, apareceu na porta de casa um louco. Um rapaz bem jovem, devia ter uns 20 anos de idade. Ele dizia estar procurando o pai dele, olhou em para mim e disse:
- Estou procurando o meu pai, não sei onde está o meu pai, eu acho que meu pai é o senhor. O senhor é meu pai?
- Não tenho filhos, moço - respondi.
Este agora. Eu com 25 anos ter um filho de 20. Acho que nem a ciência faria um milagre tão grande como aquele. Só se via que era louco por causa da roupa do sanatório que usava. No outro dia vim a saber que fugiram 5 loucos durante o temporal.
No hospício aqui, sempre faziam festinha de São João. Eles soltavam os loucos que não eram perigosos. Fui numa festinha destas por curiosidade. Eles eram colocados em blocos de 5 em cada mesa onde era servido refrigerante. Encostei a uma dessas e ouvi a conversa:
- Quando eu crescer quero ser investigador - dizia um.
- Investigador de que? Perguntou o outro. Você não presta pra nada.
- De defunto. Quero ser investigador de defunto.
- De defunto? Aí não vai adiantar mais nada. O cara já tá morto mesmo.
- Por isto mesmo. Aí ele não vai dar a bronca comigo se eu lhe meter as mãos na cara, no bolso, arrancar-lhe a calça e a camisa.
Este louco aí devia ter sido ladrão em sã consciência.
Apareceu outro louco fazendo propaganda. Devia ter sido camelô, pois gritava bem alto:
- Apenas 10 cruzeiros, minha senhora, com um ano de garantia. Se a mercadoria não prestar, a senhora devolve e recebe o dinheiro de volta.
- Sincero este aí. Resolvi então perguntar a ele:
- O que é que você está vendendo?
- Cabelos usados, meu senhor. Com dupla garantia. O senhor usa até quando acabar. Se não prestar o senhor devolve e recebe o dinheiro de volta. E o senhor pode usar o cabelo onde quiser, será de sua propriedade.
Não ousei perguntar ao louco onde eu poderia usar aquele cabelo. Ele não tinha nenhum cabelo nas mãos, na cabeça muito menos, era completamente careca.
Outro louco levantou da mesa gritando:
- Isto é um verdadeiro assalto. Querem viver às nossas custas. Onde é que já se viu vender um bambolê por dois reais? Daqui a pouco todo mundo vai ter que andar descalço.
Este aí em sã consciência devia ser o terror dos comerciantes. Se ele soubesse que um bambolê hoje custa 15 reais e não 2, ele ficaria louco. Louco? Mas deve ter sido por isto que ele ficou louco.
Outro louco se mete a gritar:
- Esta não. Que calamidade! Estudei durante 12 anos. Sempre tirei notas boas e no meu primeiro emprego me mandam mexer com bosta?
Provavelmente foi um estudante de Bioquímica, pois é neste curso que se aprende a fazer exames de sangue, fezes, urina, etc.
Às vezes o louco não é tão louco como a gente pensa. Há muita gente normal por aí que é mais louca que muitos loucos. Também por qualquer motivo uma pessoa pode ser louca. Por exemplo, se uma moça pedir a um homem( pode ser o pai, irmão, o namorado) comprar-lhe uma calcinha na loja, o homem passará por verdadeiro vexame. Como é que ele vai pedir a mercadoria, ainda mais se só houver moças no balcão? O coitado ficará louco, porém a moça já ficou louca há muito tempo.
Mas entre todos os loucos encontrei um que era original. Era um cara forte, bem vestido e não estava no hospício. Chegou no bar, pediu um aperitivo, abriu uma sacola, retirou umas cascas e ofereceu à rapaziada.
- Isto aqui é casca de uma planta que cura impotência sexual de um dia para o outro. Basta fervê-la e tomar um cálice a cada hora.
- Aqui todo mundo é jovem. Ninguém tem impotência - disseram os rapazes.
Conversa vai, conversa vem, o louco era simpático, a rapaziada também, indagaram daqui, indagaram dali, acabaram descobrindo onde o louco retirava as cascas. O bom louco indicou a árvore certa, a rapaziada agradeceu. O louco foi embora. No outro dia a árvore inteira amanheceu sem as cascas.

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