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A peste emocional na maternidade
- por Géssica Hellmann
- Publicados 23/02/09
- Medicina e Saúde , Psicologia , Sociedade
- Não Avaliado
Géssica Hellmann
Géssica Hellmann é Profissional de Mídia Social, Designer e Artista Plástica.
Veja todos os artigos por Géssica HellmannMaternidade e Sexualidade

Pregnante girl red background por Lawrence Buttigieg
Neste artigo quero contar a experiência que tive com a gestação e parto do meu segundo filho. Foi uma gestação calma até os quatro meses, quando comecei a ter alguns desmaios súbitos. Fiz alguns exames e nada indicava o que poderia exatamente a causa. Durante dois meses esses desmaios continuaram acontecendo, principalmente quando eu caminhava em dia ensolarado. Minha pressão que sempre foi baixa despencava. Meu médico percebeu uma pequeno aumento de anemia, muito comum em gestantes. Aumentei a dose de sulfato ferroso e minha situação se nornalizou.
Fiz todo o pré-natal pelo SUS, apesar da desorganização geral do sistema único de saúde, fui razoavelmente bem atendida durante o pré-natal. O parto decidi que desta vez faria pelo SUS, na maternidade Darci Vargas, alguns anos atrás considerada a melhor do país, por possuir o menor índice de óbito fetal.
Quando completei 39 semanas e 5 dias de gestação senti minha primeira contração. Sabia que estava próximo, agora era só aguardar o nascimento tão esperado. Pouco sabia que passaria por emoções tão fortes e conflitantes. Reproduzo abaixo o diário das horas que passei desde a chegada a emergência até a alta do hospital.
18:00hs - 30/01:
Fui a emergência da maternidade Darci Vargas, pois pela última
ultra-som que eu havia feito já havia completado 40 semanas de
gestação. Fui bem atendida na recepção da emergência, na triagem e pela
médica de plantão. A médica me examinou e disse que aparentemente
estava tudo bem com o bebê e que eu já estava com 1,5cm de dilatação.
Pediu que eu retornasse na manhã seguinte e realizasse dois exames:
eletrocardiograma e ultra-som.
04:00hs as 13:00hs– 31/01:
Em casa comecei a sentir as primeiras contrações e percebi que havia
“vazado” um pouco do líquido amniótico. Aguardei até as 05:30 quando
resolvi voltar a emergência. Fui atendida novamente pela mesma médica
da noite anterior, ela me informou que a dilatação havia aumentado, me
aconselhou a voltar para casa e tomar um café da manhã reforçado e
então retornar por volta das 8:00 para fazer os exames. Fiz o que me
recomendou. Quando retornei a emergência, as contrações e as dores já
haviam aumentado. Fui pessimamente atendida pela recepcionista (uma
mulher de pele escura e cabelos curtos), que nem olhou para mim, me
ignorou por 20 minutos no balcão de atendimento enquanto “conversava
com os seguranças e fazia crochê”. Finalmente perguntou meu nome, meu
endereço, minha religião, meu grau de escolaridade… tudo e menos o que
realmente importava: como eu estava me sentindo e o que porque eu havia
procurado a emergência. Me fez aguardar na recepção. Fui atendida então
pela triagem, que me recebeu bem e disse que retornasse até a sala de
recepção. Somente as 10 horas, com as contrações cada vez mais
doloridas e menos espaçadas, fui levada para fazer o eletrocardiograma.
Novamente volto a recepção e aguardo até as 12:00hs para já me
contorcendo de dor, quase sem conseguir caminhar, atravessar os
corredores até a sala de ultra-som. Fiz a ultra-som e pediram que
aguardasse novamente na recepção da emergência até uma médica poder
atender. Várias gestantes percebendo o meu sofrimento, tentaram dar o
seu lugar para que a médica me atendesse antes, sendo completamente
ignoradas pela auxiliar de enfermagem. As 13:00 fui atendida pela
médica de plantão. A médica, muito grossa, impaciente, indiferente a
dor que eu estava sentindo, me machucou ao tentar verificar com quanto
de dilatação eu estava usando uma luva sem gel. Então finalmente
resolveu me encaminhar para a sala de pré-parto, pois eu já estava com
4 cm de dilatação.
13:30hs as 18:00hs aproximadamente - 31/01:
No pré parto fui muito bem recebida, com atenção e muito carinho por
todos. O mesmo tenho a dizer do pessoal da analgesia e da obstetra na
sala do parto. Foi um parto sem dor, a pesar da criança ter nascido com
mais de 3,900 kg. A pediatra que acompanhou o parto me informou que a
criança estava bem e que por nascer com o peso superior a 3,900kg ela
teria que fazer alguns exames de controle de glicose nas primeiras 48
horas. Após o parto, fui enviada ao berçário, recebi uma sopa como
alimentação, já que não comia nada desde as 7:00 da manhã.
A primeira noite de internação:
Uma auxiliar de enfermagem de cabelos curtos pintados “ruivos”, veio
buscar a maca onde me encontrava com meu filho recém nascido. Neste
momento minha mãe estava ao nosso lado. Esta enfermeira grosseiramente
exigiu que minha mãe empurrasse a maca para que ela guiasse pelos
corredores. Minha mãe por ser deficiente auditiva, não entendia direito
o que esta auxiliar de enfermagem resmungava. Até o momento que ela
novamente ordenou que minha mãe empurrasse com mais força e de forma
mais rápida a maca para que ela não precisasse fazer força. Foi quando
chamei a atenção desta enfermeira dizendo que minhã mãe era deficiente
auditiva. Simplesmente amarrou a cara e se quer pediu desculpas pela
grosseria feita com minha mãe. Minha mãe estava somente me acompanhando
naquele momento, não era funcionária da maternidade. Ao chegar ao
quarto, esta mesma auxiliar de enfermagem “ruiva” começou a apertar
minha barriga, dizendo que tinha que colocar no lugar e pediu que eu
relaxasse, mas eu sentia uma enorme vontade de urinar e pedi para ir ao
banheiro. Me ignorou. Outra enfermeira entrou esse momento e percebeu
que minha bexiga estava cheia, de forma que eu não conseguiria
“relaxar” para a outra enfermeira por meu útero no lugar ou seja lá o
que ela pretendia. Me ajudou a sentar na cama e disse que isso
facilitaria, pediu para esperar um pouco e se eu não estivesse me
sentindo tonta que eu poderia ir ao banheiro e saiu do quarto. Como
estava realmente me sentindo forte e bem, e com muita vontade de
urinar, pedi a minha irmã que me acompanharia a noite que me
auxiliasse. Aproximadamente uma hora depois a mesma enfermeira “ruiva”
volta ao quarto e perguntei se eu já poderia tomar um banho, disse que
sim mas que eu não podia lavar a cabeça. Bom esse já é meu segundo
filho, e minha primeira obstetra disse que banho e água limpa não fazem
mal a ninguém. Com a ajuda da minha irmã, fui ao banho. Quando ainda me
banhava a enfermeira abre o box do chuveiro e reclama que eu lavei a
cabeça. Lavei-me, não sentia dor, nem tontura, somente um pouco cansada
o banho me fez bem. (No dia seguinte questionei a obstetra e ela disse
que não havia problema algum em tomar banho após o parto, que era
extremamente saudável). Já se passava das 21:00hs quando finalmente
percebemos que não havia acomodação mínima para as acompanhantes no
quarto onde estávamos (número 1). Havia três mães no quarto e três
acompanhantes e somente uma cadeira. Como a maternidade nos
proporcionava direito a um acompanhante, o mínimo esperado era uma
cadeira para passar os próximos dias. Minha irmã foi ao posto de
enfermagem perguntar onde poderia conseguir uma cadeira para ela e para
a acompanhante do leito 2. A resposta que recebeu é que “não tinha
cadeira disponível.”
Na volta para o nosso quarto 1 onde nos estávamos ela percebeu vários quartos desocupados com mais de uma cadeira disponível. Questionou as duas enfermeiras de plantão sobre a possibilidade de conseguir as cadeiras disponíveis nos quartos não utilizados e também foi ignorada. Até que finalmente a auxiliar de enfermagem “ruiva” disse que “a direção do hospital não permitia que fossem removida as cadeiras dos quartos, e se o nosso quarto não tinha ela não podia fazer nada. E se não bastasse fez o seguinte comentário: “Não sei pra que acompanhante, não deveria ter acompanhante”. A falta de humanidade com o trato com as pacientes era evidente. Onde estava o respeito ao próximo? Caso estivéssemos sozinhas ficaríamos reféns a esse tipo de ser humano? Passou-se algumas horas até que encontramos de passagem no corredor uma alma caridosa que nos conseguiu duas cadeiras.
Os próximos dias:
A equipe responsável pela limpeza costumava entrar falando alto não
respeitando o sono dos bebês. O pessoal responsável pela alimentação
também deixava a desejar no trato com as pacientes, obrigava-nos a
comer em menos de 30 minutos (principalmente na hora da janta) porque
precisavam fechar a cozinha, sem se importar se estávamos ou não
amamentando nossos filhos nesse momento.
Na manhã do dia 01 de fevereiro recebi a visita da obstetra que foi muito atenciosa e disse que se tudo ocorresse bem no que dependesse dela eu estaria de alta na manhã da segunda feira. No dia seguinte recebi a visita bem cedo da obstetra que me deu alta. Aguardei ansiosa a visita do pediatra para dar alta a meu filho. No dia do parto, como dito anteriormente me avisaram que meu filho faria os testes de controle de glicose, todos deram normais, a meu ver nada mais me impedia de ir embora, somente esperava a visita do pediatra para avaliação final. Horas depois o Dr. Marcelo, pediatra (nome este informado posteriormente por outra funcionária do hospital), um jovem pediatra veio examinar meu filho, disse que aparentemente estava tudo bem com o bebê e só precisava confirmar os dados referente ao peso, disse-me que iria até o pronto atendimento e voltaria em seguida para terminar a avaliação. Fiquei aguardando a volta que não aconteceu. Passou-se do meio dia e nada. Chegou ao final da tarde e nada dele aparecer, fui várias vezes indagar no pronto atendimento onde estaria o pediatra para terminar a avaliação do meu filho e nada. Sempre respostas do estilo “eu acho que ele está não sei a onde”, “assim que ele voltar ele vai provavelmente vai ao seu quarto”… Até que me alterei, entrei em crise depressiva pois mais uma vez a funcionária que trazia a janta foi ríspida ao dizer que precisávamos comer em menos de 30 minutos porque ela viria recolher a bandeja. A comida já não descia, eu estava exausta, queria uma resposta e não “achismos” de vários funcionários que eu interpelei. Queria o direito de receber o parecer médico quanto a situação do meu filho. Porque ainda estavam nos mantendo lá? O que havia de errado? Então ao ver que eu não estava bem, enviaram outra pediatra que não podia “avaliar a situação do meu filho”, segundo ela somente o Dr. Marcelo poderia dar alta. E que provavelmente eu ficaria 72 horas no hospital, ou seja mais um dia inteiro naquela situação de stress. Meu marido chegou nesse meio tempo, contei a ele o que estava acontecendo, foi quando ele resolveu procurar a direção do hospital, que coincidentemente é o pediatra do meu outro filho: Dr. Paulo Furlanetto. O meu marido perguntou a ele qual o porcentagem considerada normal por perda de peso do recém nascido após 48 horas: ele prontamente respondeu 10%, ou seja, meu filho poderia perder até 390 gramas que seria considerado normal. Perguntou também como era o procedimento para dar alta e questionou que o médico não terminou a avaliação. Ele disse que o pediatra deveria passar no das 09:00hs até as 12:00hs obrigatoriamente. Passamos mais uma noite, eu e meu filho na maternidade. Nesta mesma noite recebemos duas visitantes: duas baratas, uma apareceu em cima da cama do leito 2 e outra no chão próximo a porta. Foi um susto danado e desagradável. Porque já estávamos aguardando as três mães internadas no quarto 1 a tanto tempo, ansiosas pela visita dos pediatras para recebermos alta, o stress causado pelo péssimo tratamento por parte dos funcionários que trabalham na internação, que baratas só vinham a confirmar: aquele não era o melhor lugar para manter-nos saudáveis.
05:40 do dia 03/02:
Comecei a sentir dor e cólicas, foi quando percebi que desde que havia
“recebido alta” na manhã do dia 02 não havia mais recebido remédios.
Fui procurar uma enfermeira e disse a ela que estava sentindo dor se
podia me ajudar. A enfermeira em questão era uma mulher negra, de
cabelos amarrados, me olhou com cara feia e disse que não podia fazer
nada e que não era hora de “remédio”. Então eu disse que estava com
muita dor, e não tomava remédio desde o dia anterior, provavelmente
porque havia recebido alta. Então ela me disse você devia ter ido ao
“postinho” quando recebi alta e pedir os remédios que o médico
certamente havia receitado. Eu respondi, como poderia ter ido se meu
filho ainda não recebeu alta? Me ignorou e seguiu seu caminho. Se não
fosse uma acompanhante do quarto onde eu me encontrava, que tinha em
sua bolsa um paracetamol, eu ficaria sentindo dor indefinitivamente.
Finalmente amanheceu e uma enfermeira, que não recordo o nome, muito querida e atenciosa apareceu para ajudar no banho dos bebês. Disse que logo o pediatra deveria aparecer para avaliar os bebês. Já eram 10:00hs da manhã e o pediatra ainda não havia aparecido. Meu marido já estava ao meu lado neste momento. 11:35hs a enfermeira chefe vem ao nosso quarto querendo saber qual o que havia acontecido, pois havia recebido informações da diretoria de insatisfação por parte de paciente. Escutou nossas insatisfações e nos aconselhou a responder ao questionário de avaliação dos serviços prestados pelo hospital. Uma pediatra chega logo após e da alta ao meu filho. Finalmente saímos da prisão, estávamos livres.
A peste emocional na maternidade: um ambiente pós parto que era para ser de pura felicidade, pois concebemos uma vida nova, com muito amor, alegria e também esforço físico e emocional. percebo a misoginia de mulher contra mulher, a neurose embutida em cada ato, cada ataque verbal. Um ambiente que necessita de aconchego e carinho para mãe e o bebê, transformado aos poucos em cárcere privado. Pessoas não preparadas para trabalhar no trato com seres humanos, pessoas que não sabem o valor do amor ao próximo.
Hoje livre, cansada e feliz , 11 dias após o nascimento de meu filho fui ao pediatra efetuar uma consulta de rotina. Ele está ótimo e saudável. Mais uma ser iluminado, uma fonte de alegria para compartilhar nossas vidas.
Publicado originalmente em: http://gehspace.com/sexualidade/2009/02/11/a-peste-emocional-na-maternidade/





