Desejo e realização numa abordagem sociológica, na obra de Antônio de Alcântara Machado
GAETANINHO: Desejo e realização numa abordagem sociológica, na obra de Antônio de Alcântara Machado
COSTA, Carlos Leite;
VIDAL, Cecília Sutana;
MELO, Sandra Rosa
Resumo: O presente artigo foi elaborado a partir do Conto Gaetaninho, do autor Antônio Alcântara Machado. Baseando-nos na avaliação da mensagem subtendida no texto literário, procuramos estabelecer, como objetivo de estudo, a relação que há entre o desprovimento financeiro e realização de sonhos. Metodologicamente estaremos partindo da concepção de pobreza, que o texto subjetivamente revela, tentando confrontá-la (estudo comparativo) com a realidade empírica, visto que tal realidade tem demonstrado que os desafortunados dificilmente conseguem a realização de suas aspirações ou, quando conseguem, quase sempre é decorrência do acaso. Adotamos como hipótese o fato de que a pobreza pode conduzir a instigação de sonhos, especialmente quando colocada frente a novas possibilidades de “status” social. Como conclusão, entendemos que a relação que há entre desprovimento financeiro x desejos/ sonhos x realizações pessoal surgem a partir do momento em que o ser humano se defronta com novas possibilidades de vida, ou seja: sair da condição de pobreza para um patamar mais elevado na escalada social.
Abstract: The present article was elaborated from the Gaetaninho Story, by Antonio Alcântara Machado. Basing on the evaluation of the message in the literary text we look for to establish, our objective of study, the relation that there is between the financial destitution and accomplishment of dreams. Metodologically we will be leaving from the conception of poverty, that the text subjectively discloses, trying to compare it (comparative study) with the empirical reality, since such reality has demonstrated that the unfortunate ones hardly obtain the accomplishment of their aspirations or when they obtain, it is by chance. We adopt as hypothesis the fact that poverty can lead the instigation of dreams especially when there are new possibilities of “social status”. As conclusion, we understand that the relation that there is between personal financial destitution x desires/dreams x accomplishments appears from the moment where the human being confronts with new possibilities of life, to leave the condition of poverty to a raised platform in the social scaling that is.
Palavras Chaves: Pobreza; Sonhos; Desejos; Realizações; Gaetaninho.
O nosso ponto de partida – Conto Gaetaninho – vem demonstrar a realidade da vida de muitos seres humanos que se encontram envoltos no secular dilema da satisfação de necessidade pessoais básicas, frente à satisfação daquelas necessidades escondidas do ego de cada um como meio de ascensão social.
O personagem Gaetaninho, demonstra claramente essa dualidade na relação entre a satisfação das necessidades básicas x necessidades de satisfação do ego, pois diante do cenário apresentado pelo autor o mesmo não possuía uma condição econômica satisfatória frente a padrões de vida mais elevados. Acrescenta-se o fato de que, no conto fica explicito que Gaetaninho morava num bairro simples de São Paulo, que era habitado por grande número de Italianos. O que é confirmado no trecho do conto:
Ali na Rua do Oriente a ralé quando muito andava de bonde*. De automóvel ou carro só mesmo em dia de enterro. De enterro ou de casamento. Por isso mesmo o sonho de Gaetaninho era de realização muito difícil. Um sonho. (*Grifo nosso)
Colaborando com nossa afirmativa, podemos dizer que a realidade apresentada no conto provavelmente se deu entre as décadas de 1920-1930, durante o apogeu e declínio da cultura cafeeira, pois nesse período tem-se a ocorrência da imigração de grande “levas” de Italianos que desembarcaram no Brasil. Esses se amontoaram em cortiços e apresentaram uma condição de sobrevivência muitas vezes beirando aspectos sub-humanos. Tal fato demonstrava a grande diferença que havia entre a elite da época (coronéis do café) e a massa pobre do país (trabalhadores).
Além disso, acrescentamos à informação de que no período do governo Getúlio Vargas o mesmo priorizou, como investimentos econômicos, a construção de linha férrea, sendo o trem férreo o meio de transporte incentivado no planejamento econômico, conforme mencionado por Furtado (2000, p.120).
Nas últimas décadas vem confirmando uma tendência de enorme desigualdade na distribuição de renda e elevados níveis de pobreza, em relato empírico, retrata a realidade da pobreza e da desigualdade. Quem chega aos bairros periféricos da cidade de São Paulo é aturdido por duas fortes imagens: a da extrema pobreza e a impressão de estar num bairro de crianças. As crianças estão por toda parte, seja nas ruas, nas vendas, nos pequenos quintais, estão sempre brincando, cantando e tentando se divertir nos seus grupinhos.
Comparativamente, e buscando um ponto de contato entre a realidade da época e a realidade apresentada no conto, observamos que o autor Antonio de Alcântara Machado narra a existência de Bonde transitando nas ruas do bairro, onde Gaetaninho morava. Tanto que esse meio de transporte acabou ceifando a vida do menino.
O autor ainda releva traços de insatisfação pessoal do menino com a condição econômica em que vivia, pois era privado da realização da satisfação do seu ego, ou seja, de desejos hipervalorizados de obtenção de ‘status’ econômico-social, porque o sonho de Gaetaninho era andar de carro e se fazer presente perante a sociedade, o que somente seria conseguido na concepção psicológica subjetiva do personagem, via prestígio econômico. Essa percepção coaduna com a ideologia, talvez, associada como representação da elite.
Valores essencialmente humanos não são destacados no texto, o que confirma a concepção de que a pobreza pode conduzir à instigação de sonhos, especialmente quando colocada frente a novas possibilidades de “status” social.
Quando consideramos os valores interiores de Gaetaninho, percebemos que sua condição econômica gerava conflitos marcantes do ego, visto que o mesmo dava sinais de possuir traços de personalidade “exibicionista”, no sentido de “ser um alguém” e de ocupar um lugar de destaque na sociedade.
A esse respeito o autor Alcântara narra o fato de que o menino se visualizava andando de carro, quando sonhou com o enterro da Tia Filomena, nessa ocasião ele estava vestido com a “melhor roupa”, no conto chamada de domingueira, conforme o trecho abaixo:
[...] levavam a tia Filomena para o cemitério. [...] ele. Na boleia do carro. Ao lado do cocheiro. Com a roupa marinheira e o gorro branco [...] que beleza de rapaz! [...] Gaetaninho ainda não estava satisfeito. Queria ir carregando o chicote* (*grifo nosso)
Pelo destaque dado ao trecho anterior, percebemos que era desejo de Gaetaninho atuar/estar em posição de comando, visto que nesta o mesmo seria visto como alguém importante.
Na atualidade percebemos que o conto é amplamente aplicável, quando consideramos a realidade empírica da maior parte da população que não possui condições econômicas no grau desejado.
Essa ausência de recursos financeiros, quando coloca em questionamento a má distribuição de renda existente no país, traz à tona a realidade de muitos “Gaetaninhos”. Meninos e meninas vivendo em condições paupérrimas, desejosos de satisfazerem seus desejos egoísticos e de principalmente, ocuparem posição de destaque. O que dá uma nova roupagem à exposição literária é o surgimento da violência como meio de conquistar um “lugar ao sol” sugestivamente, de obter uma elevação na estratificada/concentrada pirâmide socioeconômica.
Nesse sentido, percebemos que a relação que há entre desprovimento financeiro x desejos/sonhos x realizações pessoais surgem a partir do momento em que o ser humano se defronta com novas possibilidades de vida, ou seja, a possibilidade de sair da condição de pobreza para um patamar mais elevado na escalada social, mesmo que seja através da força – violência social, o que no texto não é comentado explicitamente - violência como meio de ascensão social.
A morte de Gaetaninho ficou marcada como uma triste tragédia, porque ele foi morto atropelado por um bonde onde estava o seu pai e só conseguiu andar na frente do carro, dentro do caixão no seu funeral. A morte segundo a sua definição, designa o fim absoluto de qualquer coisa de positivo, é a mudança dos seres e das coisas, a fatalidade irreversível, a desilusão e o desprendimento. Com a morte de Gaetaninho, morreu também os seus sonhos, as suas fantasias, as suas ambições e agora ele passou a ter um “lugar ao sol”.
Percebemos que a pobreza não é uma situação totalmente pacifica e aceitável, pois é natural ao ser humano desejar condições melhores de vida. Contudo, a grande chave da questão reside no fato de que devemos conquistar um lugar de destaque com esforço, empenho e dedicação aos nossos ideais de vida, sem perdermos o foco dos valores essencialmente humanos, pois se assim procedermos estaremos deixando de alimentar o conflito que há entre desprovimento financeiro x desejos/sonhos x realizações pessoais, podendo ser essa “aceitação” uma forma mais branda de conquistar e realizar os sonhos.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
CHEVALIER, Jean etal. Dicionário de Símbolos. 19 ed. Rio de Janeiro: José Olympia, 2005
FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. 17 ed. São Paulo: Saraiva, 2000
MACHADO, Antônio de Alcântara. Gaetaninho. In: Novelas Paulistanas, Rio de Janeiro, José Olympio, 1961, p. 61.
TUFANO, Douglas [org.]. Antologia do conto Brasileiro: do Romantismo ao Modernismo. São Paulo: Moderna, 1994, pp. 68-71