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Prevenção de Acidentes, Utopia Brasileira - ou cobrir o sol com a peneira.
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Magno Expedito de Barros
40 anos trabalhando para os outros e acreditando nêles... apesar de tantas decepções, mas com a consciência do dever cumprido - apesar de bem comprido. Não devo nada a ninguém e ninguém me deve nada. 59 anos de idade e acreditando muito em mim e na vida, mas acreditando pouco nas pessoas que não lêem, não apreendem (com dois "e") e não ouvem ... ////////// magnodebarros@gmail.com ////////// http://magnodebarros.blogspot.com 
por Magno Expedito de Barros
Publicado 6/03/08
 
Mudanças urgentes e necessárias. Ou seremos sempre meros expectadores das nossas próprias acomodações.

Eu adoro minha profissão...
Eu estava pra ir me sentar defronte ao computador para fazer uma pesquisa bem atualizada de dados sobre acidentes para escrever este artigo. Não, não é por sadismo, faz parte da minha profissão. O ritual é respirar fundo, repetir diversas vezes, como um mantra – “aceitar como são as coisas que não podemos mudar” – mas pelo menos podemos insistir, persistir, tentar sensibilizar os corações endurecidos dos que se envolvem como não estivessem se envolvendo. Eu disse “estava” porque decidi que não faria  pesquisa nenhuma. Já sei o que vou encontrar. E decidi então, com a aprovação e licença dos editores, fazer um exercício de “adivinhação” e afirmações de minha vivência profissional para esta matéria técnica sobre Segurança e Saúde Ocupacional. Senão, vejamos...

Todo acidente é causado. Acidentes não acontecem por que tinha que acontecer, por obra do destino, foi uma fatalidade, foi castigo de deus ou zeus é que quis e outras bobagens que ouvimos sempre depois de um. Estou falando sobre qualquer acidente. Os “técnoburocratas” criaram várias denominações para tipificar, justificar, qualificar, quantificar e nomear os  acidentes, como se isso influenciasse na causa. Uma investigação de acidentes é tão burocrática, que se passa mais tempo pesquisando significados do que apontando as causas e as necessárias soluções.

Os acidentes são causados por dois essenciais motivos: a arrogância  e a ignorância. Quem tem poder – de  direito, de conhecimento, do dinheiro ou político – e que usa-o em benefício próprio, manipulando pessoas em sua órbita para conseguir destaque, ganhos pessoais e lucros, mesmo que as exponha a riscos, é o arrogante. Viver em volta ou em função destes indivíduos é o perigo. Risco é um fator que depende do perigo.

O ignorante é o que não sabe, o que não quer aprender, o que não sabe e não quer aprender mas finge que sabe, o que aprendeu um pouco e se acha muito bom, embora mal sabe ler. É facilmente envolvido pelo arrogante. É o que mais se expõe aos riscos.
E os mal formados, uma mistura exótica de arrogância e ignorância, muito comum no nosso dia a dia. Supervisores e  Motoristas, por exemplo, fazem parte desta arrepiante classe, pelas facilidades de se conseguir a habilitação e pelas dificuldades de se conseguir uma explicação. Histórias de motoristas – agora é condutor – são para escrever livros e livros, abrangendo desde, e  principalmente, o humor, até os casos verdade dignos de novelas.
Um acidente de avião mata 199 pessoas e acontece uma vez por ano, o mesmo tempo que fica na mídia. Acidentes com veículos matam este número por mês. E é tão comum que a mídia se cansou e não dá mais notícia, apenas informa. Não vamos nem comparar a formação do piloto de avião com a “formação” de um “piloto” de veículo, seria cômico se não fosse trágico. Acidentes do trabalho matam este mesmo número de pessoas em apenas dez dias. Pelos números oficiais. Os supervisores chamam de "fatalidade".

Na década de 70, o índice de arrogância e ignorância estava tão alto que a quantidade de acidentes, no trabalho, bateu recordes nacionais e mundias e que incomodaram até os frios e calculistas detentores dos vários poderes da época. Inclusive, e principalmente, prestadores de serviços e a construção civil. E então, inventaram a “segurança do trabalho”, através de lei, se tornando uma obrigação que promoveu a feitores e supervisores de “segurança”, os lerdos não produtivos, os reclamadores, os mais antigos que falavam muito e produziam pouco, os protegidos e queridinhos dos chefes e outros mais. Eram  "formados,  diplomados e registrados" em dias. Na época, “trabalhar” em segurança era só ficar no meio da turma, olhando. Os números oficiais, baixaram muito pouco. Atividade nova, pessoal mal formado e mal informado que por duas décadas fizeram fachada. Só estavam ali por causa da lei e ainda eram “aproveitados” para outras funções.  Ainda se “trabalhava” na engenharia dos acontecimentos, e não no sempre necessário, importante e fundamental conhecimento do trabalho e seus riscos. Perigo é planejado, o risco é calculado. Daí a importância de se concentrar nos comportamentos. Estes sim, baixaram significativamente o índice oficial dos acidentes, quando passaram a ser aplicados  pelas grandes empresas, apesar da pressão produtiva. As pequenas continuam pequenas, em todos os sentidos. Índice oficial, é o que o governo e suas entidades publicam. O número real deve ficar perto do dobro, ou mais. Os empreendimentos, todos, culpam o governo pelos impostos e descontam nos empregados. O governo culpa os empreendedores e descontam com mais impostos.
A tentativa de melhoria na estruturação do chamado serviço especializado em segurança e medicina do trabalho, esbarrou na vaidade. O médico "do trabalho" não conhece a área que provoca a doença ocupacional e nem a rotina de quem ali trabalha. O engenheiro "de segurança do trabalho" não trabalha na correção das falhas do projeto ou do ambiente, projetados por outro engenheiro, e que caracterizam  condições de risco. Geralmente são contratados para ser chefe dos técnicos e criar planilhas de procedimentos para estatísticas. Os técnicos não se atualizam, não lêem e não evoluem nos discursos. Detesto quando dizem “conscientizar”, como se essa palavra fosse mágica e, pior, sem saber o significado. Nesta área não há espaço para “conscientizar”. Ou educa ou continua sendo o que é. Quem é da CIPA não sabe o que é a tal de comissão interna de prevenção de acidentes, mas sabe que tem dois anos garantidos de estabilidade. E quem precisa ouvir já sabe o que vai ouvir na "palestra" sobre “segurança”.

Mudanças são necessárias. Melhorias são necessárias. Mas, enquanto a Prevenção de Acidentes insistir em ser “segurança do trabalho” ou “direção defensiva”, enquanto essas mudanças e melhorias estiverem atreladas a “vontade e interesses” da política das empresas e enquanto a politicagem governamental atender alguns em detrimento de todos, nada vai mudar.
Vamos ficar na torcida e esperando ... insistindo na esperança.